Os morfemas dos verbos regulares no português

A simples comparação de uma forma verbal com outra nos leva facilmente a reconhecer os elementos mórficos, ou morfemas. Repare só. 

Exemplo 1

AMAR

CANTAR

Se você olhar com atenção, verá que há uma parte comum: AR. Se você olhar novamente, perceberá que as partes alteradas AM e CANT é que são responsáveis pelas diferentes significações. Essa parte é o radical primário ou raiz.

Exemplo 2

VER

VIR

São dois verbos, e não têm o mesmo significado, apesar de terem o mesmo radical: V. Em VER e VIR, o segundo elemento mórfico (ou morfema) é o responsável pela diferença. Localiza os verbos em diferentes grupos (conjugações), logo é ele que, agora, determina a variação significativa ou semântica. As vogais E e I chamam-se vogais temáticas. Na nossa língua, são três: A, para a 1ª conjugação (falar, continuar, tergiversar); E, para a 2ª (vender, recolher, perceber) e I, para a 3ª (partir, descobrir, extinguir).  

Exemplo 3

AMAVA

AMARIA

AMASSE

Chamamos de TEMA a soma do radical (no caso, AM) com a vogal temática (no caso, A). Assim, o tema dessas formas do verbo AMAR é AMA. VENDE e PARTI são os temas dos verbos VENDER e PARTIR.

A 1' e a 2' estão no mesmo modo (Indicativo); a 1' e a 3' estão no mesmo tempo (Pretérito Imperfeito). Só a 2' e a 3' são totalmente diferentes: tempo (Futuro do Pretérito x Pretérito Imperfeito) e modo (Indicativo x Subjuntivo). VA, RIA e SSE são desinências modo-temporais. Veja que vêm logo depois do tema. No caso de AMAR, o R é a desinência modo-temporal do infinitivo.

Há casos em que a desinência modo-temporal não aparece: AMA, VENDE, PARTI. Como são formas verbais, dizemos que as desinências são zero (∅).

Exemplo 4

AMASSES

AMASSEIS

AMASSEM

AMASSES, AMASSES e AMÁSSEIS são três formas do verbo AMAR (radical + vogal temática + desinência modo-temporal) e estão nos mesmos tempo e modo. A 1' e a 2' estão na mesma pessoa (2'), porém a 1' é singular (tu) e a 2' é plural (vós); a 2' e a 3' estão no mesmo número (plural), entretanto as pessoas são diferentes: 2' (vós) e 3' (ele ou ela); a 1' e a 3' formas apresentam diferenças de pessoa (2' x 3') e número (singular x plural). S, IS e M são desinências número-pessoais. Também a desinência número- pessoal pode ser zero (∅), isto é, não aparecer: AMASSE, VENDERIA e PARTISSE.

Veja, finalmente, como deve ser o raciocínio para identificar tais elementos mórficos ou morfemas verbais.

Quais são os elementos mórficos de DESORGANIZÁVAMOS?

Solução:

1.    É uma forma do verbo DESORGANIZAR; logo o Radical é DESORGANIZ (tira-se a última vogal e o R).

2.    A vogal temática é A, que caracteriza a 1' conjugação (verbos em -AR).

3.    O tema é DESORGANIZA (Radical + Vogal temática).

4.    Resta-nos descobrir as desinências. Como a forma da 3' pessoa do singular (ele) seria DESORGANIZAVA, pode-se afirmar que a DMT, que se repete, é VA; portanto, sobra a DNP, que é MOS, já que é o que as diferencia.

5.    Na ordem: FORMA VERBAL => DESORGANIZÁVAMOS

6.    Radical – DESORGANIZ

7.    Vogal temática - A

8.    Tema - DESORGANIZA

9.    DMT – VA

10.  DNP – MOS.

Obs.: É interessante observar que a raiz ou radical primário está no substantivo "ÓRGÃO" (“organ-”), de que, com o auxílio do sufixo "IZ" (+ AR / vogal temática e desinência modo-temporal), se forma o verbo "ORGANIZAR". Acrescentando-se o prefixo que indica negação "DES", tem-se o verbo "DESORGANIZAR" e daí vem a forma verbal analisada "DESORGANIZÁVAMOS".

Mas, aí já é outra aula...


Restrição e explicação

É uma diferença facilmente observada nas orações adjetivas, que podem ser restritivas e explicativas.

                Tal diferença já está clara no exemplo acima. Como só existem esses dois tipos de orações adjetivas, colocou-se, nele, uma vírgula antes do “que” (pronome relativo) para indicar que o que vem depois é uma explicação. Outra forma de marcar a explicação é o uso de parênteses, o que se pode ver duas linhas acima (só há um “que”, e ele é “pronome relativo”).

É bom recordar a diferença entre orações adjetivas restritivas e explicativas:

1. Minha filha que tem 12 anos é meio desligada. (a oração em itálico indica restrição – trata-se de apenas uma das minhas filhas, aquela que tem 12 anos)

2. Minha filha, que tem 12 anos, é meio desligada. (a oração em itálico indica explicação – trata-se de minha única filha, e ela, aliás, tem 12 anos)

Veja outros casos em que ocorre a explicação, diferenciando-os de restrições 

3. José de Alencar, autor do livro citado, foi um escritor moderno para sua época. (é bem claro que se está fazendo referência ao escritor romântico nascido no Ceará; ele é o único “José de Alencar” possível no entendimento do autor da frase; esse, no entanto, resolve acrescentar algo sobre ele, que se trata do “autor do livro citado”)

4. O homem, que é um ser mortal, tem a alma imortal. (agora, temos uma referência ao “homem” como ser humano em geral e, apesar do uso do singular como plural – metonímia clássica –, explicamos (daí estar entre vírgulas) que “todos os homens são seres mortais”, mas “têm a alma imortal”)    

5. O presidente dos EUA, Donald Trump, é uma figura bem negativa. (o remetente espera que o receptor saiba quem é “o presidente do EUA”; no entanto, resolve indicar seu nome, o que não é uma informação nova para identificar o ser de quem se fala; por isso, o nome “Donald Trump” vem colocado entre vírgulas)

Observação:

Veja que, no exemplo seguinte, a situação é bem diferente, o que impede o uso das vírgulas separando o nome “Fernando Henrique Cardoso”. Afinal, temos vários ex-presidentes que poderiam estar fazendo a tal palestra: Sarney, Collor, Lula e até Dilma.

6. O ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso realizou uma palestra, na semana passada, no Rio de Janeiro.

Assim, não se trata de uma explicação, mas, sim, de uma restrição.

 


ARTIGOS PRESENTES E AUSENTES

Recebi o seguinte e-mail de um amigo:

Prezado colega, trabalho com revisão de texto e fui questionado por um editor do jornal em relação à ausência do ‘artigo’ em passagens como:

a) "Tal concepção tem largo emprego em Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão e China."

b) "O presidente, nesse projeto apresentado ao Congresso, conta com o apoio de PMDB, PT, PDT e PP."

Disse-lhe que não gostava, que preferia os artigos presentes como é tradicional, mas ele disse que isso era antiquado. É mesmo?

Olá colega

Compartilho da mesma dor nos ouvidos que alguns leitores e você dizem sentir, tanto que, sempre que possível, reclamo dos articulistas e jornalistas, mas reconheço que se tornou um modismo difícil de ser combatido, principalmente em textos traduzidos ou escritos por pessoas que lidam constantemente com o inglês.  Apesar do sofrimento auditivo, devemos reconhecer que, nesse caso, a presença do artigo é questão de costume e estilo.

                Mas o fato é que fica melhor escrever:

c) "Tal concepção tem largo emprego nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, no Japão e na China."

d) "O presidente, nesse projeto, conta com o apoio do PMDB, do PT, do PDT e do PP."

É a língua viva, procurando sua melhor forma, algo que a imprensa não cria, mas ajuda a fixar...


Como se deve usar o particípio

O uso dos particípios

Há verbos cuja forma de particípio só pode ser regular: amar – amado, vender – vendido; partir – partido, ou seja, a forma que tem “-ado” ou  “-ido”. Existem outros que apenas apresentam formas irregulares: escrever – escrito, abrir – aberto, pôr – posto, ver – visto, vir - vindo.

Curiosamente, há um terceiro tipo de verbos que têm duas formas para o particípio. São ditos abundantes. Por exemplo: entregar – entregado ou entregue; pegar – pegado ou pego; ganhar – ganhado ou ganho; matar – matado e morto; imprimir – imprimido e impresso.

No uso padrão da nossa língua, existe uma diferença que orienta a utilização de cada forma. Assim:

- com auxiliares do tipo “ter” e “haver”, que formam tempos compostos, devem-se usar as formas regulares:

1) A empresa tem entregado as encomendas com atraso. 

2) Duas estagiárias haviam pegado os livros que esquecemos.

- com auxiliares do tipo “ser” e “estar”, que formam voz passiva, devem-se usar as formas irregulares:

3) As encomendas foram entregues com atraso pela empresa. 

4) Os livros que esquecemos estavam pegos pelas duas estagiárias.

- há, também, uma terceira corrente que considera que a forma ideal é aquela de uso mais comum, que, por isso mesmo, acaba sendo mais eufônica:

5) O jogo foi ganho pelo nosso time. (voz passiva)

6) Nosso time havia ganho a partida de ontem. (tempo composto)

Veja mais alguns casos e decida qual é melhor forma:

- seguir a regra:

7) A notícia já estava impressa quando chegamos.

8) Nós ainda não tínhamos imprimido a nossa marca pessoal à análise do caso.

- ou a sonoridade:

9) O dinheiro foi gasto com besteiras.

10) Eles haviam gasto todo o capital investido.


A Flexão do Infinitivo

 I)    Flexão proibida:

 a)    nas locuções verbais:

1)    Eles vão tratar disso logo.

2)    Nós podemos estudar mais.

3)    Eles têm de recorrer aos livros antigos.

b)   com sujeito pronome oblíquo:

4)    Eu mandei-os falar mais baixo ou Eu os mandei falar mais baixo.

5)    Nós não os vimos sair cedo.

6)    Os advogados mais velhos deixavam-lhes iludir os policiais jovens.

II)    Flexão obrigatória:

 c) com o sujeito antes:

7) Esperamos as duas ordens chegarem.

8) Vi as duas alunas entregarem a dissertação depois do horário.

9) A defesa aceitou os procuradores fazerem a proposta a seu cliente.

d) com sujeito, mesmo posposto, se houver um “se” reflexivo ou recíproco:

10) Nós vimos os dois políticos rivais se xingarem.

11) Nós vimos xingarem-se os dois políticos rivais.

12) Eles aguardaram os dois homens se retirarem do local do crime.

13) As duas professoras fizeram se esconderem as duas crianças.  

III)    Flexão recomendável

 e)    com o infinitivo antecipado:

14) Antes de encontrarmos os resultados desejados, tivemos algumas decepções.

15) Liberarem os  listões com a relação de aprovados era urgente para as universidades.

16) Aceitarem as novas condições tornará os brasileiros mais felizes.

 IV) Flexão facultativa:

  f) com sujeito posposto:

17) Vi chegarem logo as duas alunas ou Vi chegar logo as duas alunas.

18) Ouvi reclamarem os dois vizinhos de cima ou Ouvi reclamar os dois vizinhos de cima.

19)  Fizemos aguardarem os dois professores ou Fizemos aguardar os dois professores.

   g)   com sujeito implícito:

20) Saber isso é fundamental ou Sabermos isso é fundamental ou Saberem isso é fundamental.

21) Estudar bastante parece uma boa ideia ou Estudarmos bastante parece uma boa ideia ou Estudarem bastante parece uma boa ideia.

22) Escolher novos nomes para o Congresso parece essencial ou Escolhermos novos nomes para o Congresso parece essencial ou Escolherem novos nomes para o Congresso parece essencial

    h)   após preposição ou locução prepositiva com sujeito subentendido:

23) Nós nos encontramos na biblioteca para estudar ou Nós nos encontramos na biblioteca para estudarmos.

24) Eles saíram rapidamente, depois de receber os resultados ou Eles saíram rapidamente, depois de receberem os resultados.

25) Todos tiveram o pensamento de encontrar novos ares ou Todos tiveram o pensamento de encontrarem novos ares.