Resposta do desafio número 1

Desafio número 1

Observe bem a frase e diga onde está o erro.

"O Fluminense dificultou muito a saída de bola dos jogadores do Flamengo, que custou a equilibrar as ações no jogo de domingo."

A frase correta é: 

"O Fluminense dificultou muito a saída de bola dos jogadores do Flamengo, ao qual custou equilibrar as ações no jogo de domingo."

O verbo “custar”, quando seguido de infinitivo, tem essa oração como seu sujeito, não podendo haver, então, essa preposição “a” entre os dois. Na verdade, o “a” existe e introduz o objeto indireto do mesmo verbo “custar” (“o que custa custa a alguém”). O que ocorre com os falantes normais é a mudança do lugar da preposição.

Repare que, em “Eu custo a aprender concordância”, não “sou eu que custo”. O que custa, com certeza, é o ato de aprender concordância: “Custa a mim (ou Custa=me) aprender concordância.”

Assim, na frase-desafio, falta ao pronome relativo a preposição “a”, é melhor que o relativo seja qual para selecionar o antecedente (no caso “Flamengo”) e fica sem o “a” antes do infinitivo:

"O Fluminense dificultou muito a saída de bola dos jogadores do Flamengo, ao qual custou equilibrar as ações no jogo de domingo."


No dia da Língua Portuguesa, duas declarações de amor

Amo a língua portuguesa

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo (1984), reunião das crônicas publicadas no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973.
 

Eu também!

 


Algumas dúvidas sobre o uso do acento grave

Sem dúvida, trata-se de algo polêmico, mas, com um pouco de observação e bom senso, pode-se chegar a algumas certezas:

1)      Esperei você de duas a quatro horas – alguém foi esperado durante um certo tempo, que não se determinou exatamente, porém sabe-se que ficou entre duas e quatro horas.

É diferente de:

2)      Esperei você das duas às quatro horas – é claro que o sentido é outro; alguém foi esperado durante um tempo definido; a espera começou às duas horas e terminou às quatro horas.

O responsável pela diferença é o quase sempre não observado artigo, Veja bem. Na frase 1, antes dos numerais, aparecem apenas as preposições “de” e “a”. Já na frase 2, temos a combinação e a contração dessas preposições (“de” e “a”) com o artigo ”as”, daí as formas “das” (‘de” + “as”) e “às” (“a” + “as”).

A essa necessidade de se construir “em par”, dá-se o nome de paralelismo, uma das boas normas de produção textual.

Outro caso polêmico acontece quando se trata de expressões adverbiais, que, sem dúvida, apesar de muitos não saberem, devem ser usadas com o acento para evitar ambiguidade.

3)      Estou estudando Administração à distância. – é a modalidade de estudo; sem possibilidade de confusão.

4)      Entre o certo e o errado, só agora estou aprendendo a distância. – com certeza, não é modalidade, e sim sinônimo de “diferença”.

Veja mais dois exemplos.

5)      A senhora estava tão necessitada de dinheiro que aceitava vender a vista.

6)      Naquela ocasião, não nos era possível comprar à vista qualquer carro.

Fica bem nítida a diferença dos dois casos acima, No primeiro, subentende-se “a vista” como um dos “olhos”, o que é impossível no segundo exemplo.

Lembrem-se sempre. O bom escritor é aquele que facilita o trabalho do leitor.