A vírgula e as circunstâncias

As vírgulas e as circunstâncias

 

1)    O que são circunstâncias?

Circunstâncias ou noções adverbiais são ideias secundárias, que acompanham a mensagem principal.

Veja só:

- Julia nasceu.

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Essa é a mensagem principal, a que podem ser acrescentadas várias circunstâncias:

- Julia nasceu na quinta-feira, em Houston, no Texas.

Vemos aí três circunstâncias: uma de tempo e duas de lugar. Todas são adjuntos adverbiais e vieram na sua posição normal, ou seja, no final da frase, após a mensagem principal. As vírgulas existentes separam uma circunstância da outra.

 

2)    Não se deve confundir circunstâncias com estado

- Julia nasceu bem, grande e forte.

Enquanto “bem” é uma circunstância de modo, já que se refere ao ato de “nascer”; “grande e forte” são qualificações, noções de estado. Sintaticamente, não são adjuntos adverbiais, e sim predicativos.

 

3)    A posição normal das circunstâncias

- Julia nasceu rapidamente, num dia de sol, quando já se aproximava a noite.

São três circunstâncias formadas por sintagmas diferentes: um advérbio, uma locução adverbial e uma oração adverbial. Todos, porém, estão no final do período, posição normal, depois da mensagem principal.

 

4)    O uso da vírgula com as circunstâncias

4.1) Antecipadas

Na manhã de quinta-feira, a família ainda não esperava a chegada da Julia.

Ainda que não fosse esperada naquele dia, a Julia veio ao mundo.

Estando as circunstâncias (de tempo e de concessão) antecipadas, é necessário pôr vírgula nos seus finais.

4.2) Interpostas

A família, na manhã de quinta-feira, ainda não esperava a chegada da Julia.

A Julia, ainda que não fosse esperada naquele dia, veio ao mundo.

Se as circunstâncias estiverem interpostas, devem-se usar duas vírgulas para separá-las, uma no início e outra no seu final.

4.3) Na posição normal

A família ainda não esperava a chegada da Julia (,) na manhã de quinta-feira.

A Julia veio ao mundo (,) ainda que não fosse esperada naquele dia.

Caso as circunstâncias apareçam no final, ou seja, na posição normal, a vírgula pode ou não ser utilizada, devendo seu uso estar ligado à expressividade e ao ritmo que se deseja impor ao leitor.

 

5)    Uma opção mais usual na imprensa

A chegada da criança naquele dia surpreendeu a toda a família.

Apesar de tudo a chegada foi bastante comemorada.

Como as circunstâncias são facilmente identificáveis, não importa onde apareçam: as vírgulas podem ou não ser utilizadas, ficando seu uso ligado à vontade de quem escreve. No caso de julgá-las necessárias, o autor do texto as coloca. Caso não, omite-as.

É um risco, pois a frase pode conter alguma ambiguidade que quem escreve não percebe...


Classes e funções

Olá, Professor Ozanir,

 

Sou aluna da UVA em Letras, Português/Literatura, e voluntária em um projeto de aceleração da escolaridade para adultos.

Recentemente, iniciei o estudo das classes das palavras e me indaguei da importância dessa classificação para a vida prática dos alunos em geral. Eu percebo, ao contrário, a importância do estudo da análise sintática  como instrumento essencial para dar sentido às frases e, consequentemente, para a escrita e a compreensão de textos. 

Se não for nenhum incômodo e tiver tempo disponível, poderia me dar sua opinião?

Obrigada,

Sara Quimas

 

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Olá, Sara

As classes gramaticais, se vistas com uma base morfossintática, acabam sendo muito importantes para o aprendizado.

Explico melhor:

Não é importante simplesmente mostrar a noção de variabilidade ou invariabilidade das palavras, e sim os motivos que levam a tais situações.

Por exemplo, as classes ditas variáveis (artigos, adjetivos, pronomes adjetivos, numerais adjetivos e verbos) se referem ao substantivo ou às palavras que valem pelo substantivo (pronomes substantivos e numerais substantivos), concordando com eles, já que representam funções que se ligam a tais substantivos. Veja que isso – o motivo da flexão – alia o conhecimento das flexões às classes e, consequentemente, as funções.

Já as invariáveis não têm relação com o substantivo. É o caso dos advérbios (palavras que se referem a verbo, adjetivo ou outro advérbio), da preposição e da conjunção (conectivos, ou seja, palavras de ligação), além da interjeição. Novamente, o estudo de classes, isto é, a não flexão se liga às funções sintáticas.

Parece-me ser um bom caminho para o início do ensino.

Abraços.

Ozanir Roberti 

 

 


Vírgula entre verbos repetidos

Caro mestre Ozanir, boa-tarde!

Comecei a ler os seus artigos diariamente, e tenho gostado muito, principalmente o do dia 4 de Abril de 2017, intitulado 'Conselho a um jovem mestre de judô'.
Este hábito passou a ser uma extrema necessidade para mim, pois pretendo atuar na área de ensino, seguindo o seu exemplo.
Aproveito humildemente para solicitar, por gentileza, que verifique o texto do dia 30 de Março de 2017 ('Pílulas de cada dia' / 'Pílula do dia 29/3'), onde se lê:

"Resposta:
O prefixo “re”, que realmente apresentava hífen em alguns casos apresentava hífen obrigatório (veja este exemplo: era “re-ratificação”), foi simplificado."

Comentário: Pareceu-me, à primeira vista, que possa ter ocorrido alguma duplicação do trecho 'apresentava hífen' ou a simples omissão de uma 'vírgula'. Se o texto estiver correto, por favor, perdoe-me pela intromissão.
Muito obrigado sempre.
Wallace

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Olá, Wallace

Desculpe a demora.

Na verdade, não há erro, embora existam autores que recomendem o uso da vírgula quando a sintaxe deixa dois verbos sintaticamente juntos ou próximos.

Veja: "Quem entrega entrega alguma coisa a alguém.

É simplesmente um caso de atenção na leitura. Não existe razão sintática para o uso da vírgula, até porque "Quem entrega" é o sujeito da segunda oração e não se separa sujeito de verbo.

Alguns autores, porém, defendem o seu uso, alegando o caráter altruísta da vírgula, que, sem dúvida, facilitaria a compreensão.

Abraços.

Ozanir Roberti


A flexão do infinitivo

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Vamos aprender, hoje, como deve ocorrer a flexão do Infinitivo

1) Flexão proibida:

-          locuções verbais: Eles vão tratar disso logo.

-          sujeito pronome oblíquo: Eu mandei-os falar mais baixo ou Eu os mandei falar mais baixo.

2) Flexão obrigatória:

-          sujeito antes: Vi a aluna chegar atrasada. / Vi as duas alunas chegarem atrasadas.

-          Sujeito, mesmo posposto, com “se” reflexivo ou recíproco: Vi os dois políticos rivais se xingarem. / Vi xingarem-se os dois políticos rivais.

3) Flexão recomendável:

-          infinitivo antecipado: Antes de encontrarmos os resultados desejados, tivemos algumas decepções.

Liberarem os listões com a relação de aprovados era urgente para as universidades.

4) Flexão facultativa:

-          sujeito posposto: Vi chegarem atrasadas as duas alunas ou Vi chegar logo as duas alunas.

-          com sujeito indeterminado ou implícito: Saber isso é fundamental ou Sabermos isso é fundamental ou Saberem isso é fundamental.

-          após preposição com sujeito subentendido: Nós nos encontramos na biblioteca para estudar ou Nós nos encontramos na biblioteca para estudarmos.


Resposta ao desafio número 2

Observe bem o período abaixo e complete-o com a forma verbal devida: "convém" ou "convêm".

"Sobre o comportamento humano, o mestre lembrou certezas que não nos _________, nessas ocasiões, esquecer."

 

O certo é “convém”, no singular, pois o seu sujeito é a oração representada pelo verbo “esquecer”:

"Sobre o comportamento humano, o mestre lembrou certezas que não nos convém, nessas ocasiões, esquecer."

Se a frase fosse:

"Sobre o comportamento humano, o mestre lembrou certezas que não nos convêm, nessas ocasiões."

Nesse caso, o sujeito de “convêm” seria o “que”, que representa “certezas”, daí o plural. Veja só: o que é que nos convém? A resposta seria “as certezas”, substantivo que é representado pelo “que”. Por isso, no plural.

 

Voltando à nossa resposta e explicando de outra forma:

O que é que nos convém? Vê-se que a resposta seria “esquecer”. Assim, fica claro, mais uma vez, que o verbo deveria estar no singular.