"In dubio pro reo" e "in dubio pro societate"

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“In dubio pro reo” e “in dubio pro societate”

As duas expressões latinas apareceram várias vezes na imprensa nos últimos dias.

Embora nosso blog não tenha o objetivo de discutir o direito que elas legitimariam, inclusive por ser dúvida constante entre os muitos advogados que há por aí, e mais ainda entre os poucos juristas de verdade que existem em nosso país, vamos falar um pouco sobre elas.

Sabemos, porém, que a primeira é mais conhecida e muito mais aplicada!

A novidade do momento é a segunda...

Por isso, sua presença nos meios de comunicação provocou certas dúvidas.

Algumas vezes, apareceram, na imprensa, escritas erradamente. Ora vimos “dubio” com acento agudo (“dúbio”), que , no latim, não existe.

É interessante notar que esse substantivo latino deixou de existir na nossa língua, mas temos derivados como “dubiedade”, e usamos a forma regressiva (deverbal) “dúvida”, do verbo “duvidar” (do verbo latino de primeira conjugação “dubito, as, avi, atum, are”).

Calma! Sei que, na verdade, temos “dúbio” (no português, com acento) como adjetivo...  

Outra hora, encontramos “reo” com “u” no final, mas essa letra só aparece acompanhada do “s” na forma do nominativo (“reus”, na palavra do latim => “reus, rei” – substantivo de segunda declinação apresentado nas formas de nominativo e de genitivo singulares, o que é comum nos bons dicionários de latim), mas aqui, na expressão, se trata de ablativo.   

Na segunda, vimos o ablativo “societate”, sem o “e” final. Vale lembrar que o ablativo, caso normal para o adjunto adverbial, aqui é exigido na palavra “dubio” pela preposição “in” e nas duas últimas (“reo” e “societate”) pela preposição “pro” (essa palavra no latim é “societas, societatis”, um substantivo de terceira declinação imparissilábico).

O “pro” é uma preposição que pode ser bem traduzida como “a favor de”, “em prol de”.

O que as opõe são os significados das palavras “reus, rei” (réu, em português) e “societas, societatis” (na nossa língua, sociedade).

As formas corretas de grafia são “In dubio pro reo” e “in dubio pro societate”, e a melhor maneira de se entender cada uma das expressões é “na dúvida, a favor do réu” e “na dúvida, a favor da sociedade”.     

Duro mesmo foi ouvir quando um deputado pronunciou a segunda delas desta forma: “in dubio pró societá”...


Explicação e solução do desafio número 3

Explicação e resposta (reescritura)

O problema está no mau uso da palavra “cuja”, que só pode ser utilizada numa função específica. E isso ocorre por ser ela consequência de uma situação especial da nossa língua: uma forma do pronome relativo que veio do genitivo, caso latino do adjunto adnominal. Assim, “cujo e flexões” só existem nessa função.

A confusão ocorre por estar o pronome antes de um substantivo sem artigo (“transgressão”), o que, normalmente, é possível para o “cujo” e referindo-se a outro substantivo (“lei”), o que é normal para os relativos.

O problema está na função do termo substituído pelo “cuja”. Não se trata de adjunto adnominal, e sim de um complemento nominal.

O texto escrito pelo procurador-geral deve ser lido assim:

“Ninguém está acima da lei ou fora do seu alcance, cuja transgressão requer o pleno funcionamento das instituições para buscar as devidas responsabilidades.”

Isto é: “...a transgressão da lei requer o pleno funcionamento das instituições para buscar as devidas responsabilidades.”  

Daí uma possível ambiguidade: “a lei transgrediu ou a lei foi transgredida?”

Na verdade, não é um erro, mas a frase está mal construída!

O que ele, quer dizer, com certeza, é a segunda hipótese:

“...a transgressão à lei requer o pleno funcionamento das instituições para buscar as devidas responsabilidades.”

Essa não é uma forma ambígua. É totalmente clara! A preposição “a”, substituindo o “de”, impede as duas leituras.

“Estar acima ou fora da lei seria uma transgressão a ela, e isso requer o pleno funcionamento das instituições para buscar as devidas responsabilidades.”

Minha sugestão para uma reescritura precisa seria a seguinte:

“Ninguém está acima da lei ou fora do seu alcance, e a transgressão a ela requer o pleno funcionamento das instituições para buscar as devidas responsabilidades.”

Sem ambiguidade e com o sentido exato da mensagem do procurador. Ou numa versão mais simples:

“Ninguém está fora do alcance ou acima da lei, e a transgressão a ela requer o pleno funcionamento das instituições para buscar as devidas responsabilidades.”


Desafio número 3

Desafio número 3

Este é para “feras”!

O Procurador Geral da República, na sua luta pela justiça, escreveu este texto numa nota que apareceu nos jornais de hoje:

“Ninguém está acima da lei ou fora do seu alcance, cuja transgressão requer o pleno funcionamento das instituições para buscar as devidas responsabilidades.”

Há um erro na construção da frase. Encontre-o e comente-o.

Resposta na sexta-feira à noite.

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Os usos dos particípios

O uso dos particípios

Há verbos cuja forma de particípio só pode ser regular: amar – amado, vender – vendido; partir – partido, ou seja, a forma que tem “-ado” ou“-ido”. Existem outros que apenas apresentam formas irregulares: escrever – escrito, abrir – aberto, pôr – posto, ver - visto, vir - vindo.

Curiosamente, há um terceiro tipo de verbos que têm duas formas para o particípio. Por exemplo: entregar – entregado ou entregue; pegar – pegado ou pego; ganhar – ganhado ou ganho; matar – matado e morto; imprimir – imprimido e impresso.

No uso padrão da nossa língua, existe uma diferença que orienta a utilização de cada forma. Assim:

- com auxiliares do tipo “ter” e “haver”, que formam tempos compostos, devem-se usar as formas regulares:

1) A empresa tem entregado as encomendas com atraso. 

2) Duas estagiárias haviam pegado os livros que esquecemos.

- com auxiliares do tipo “ser” e “estar”, que formam voz passiva, devem-se usar as formas irregulares:

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3) As encomendas tinham sido entregues com atraso pela empresa. 

4) Os livros que esquecemos foram pegos pelas duas estagiárias.

- há, também, uma terceira corrente que considera que a forma ideal é aquela de uso mais comum, que, por isso mesmo, acaba sendo mais eufônica:

5) O jogo foi ganho pelo nosso time. (voz passiva)

6) Nosso time havia ganho a partida de ontem. (tempo composto)

Veja mais alguns casos e decida qual é melhor forma:

- seguir a regra:

7) A notícia já estava impressa quando chegamos.

8) Nós ainda não tínhamos imprimido a nossa marca pessoal à análise do caso.

- ou a sonoridade:

9) O dinheiro foi gasto com besteiras.

10) Eles haviam gasto todo o capital investido.


Os morfemas do português

Os morfemas do português

A simples comparação de uma forma com outra nos leva facilmente a reconhecer os elementos mórficos, ou morfemas. Repare só.  

Exemplo 1

AMAR

CANTAR

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Se você olhar com atenção, verá que há uma parte comum: AR. Se você olhar novamente, perceberá que as partes alteradas AM e CANT é que são responsáveis pelas diferentes significações. Essa parte é o radical primário ou raiz.

Exemplo 2

VER

VIR

São dois verbos, e não têm o mesmo significado, apesar de terem o mesmo radical: V. Em VER e VIR, o segundo elemento mórfico é o responsável pela diferença. Localiza os verbos em diferentes grupos (conjugações), logo é ele que, agora, determina a variação significativa ou semântica. As vogais E e I chamam-se vogais temáticas. Na nossa língua, são três: A, para a 1ª conjugação (falar, continuar, tergiversar); E, para a 2ª (vender, recolher, perceber) e I, para a 3ª (partir, descobrir, extinguir).  

Exemplo 3

AMAVA

AMARIA

AMASSE

Chamamos de TEMA a soma do radical (no caso, AM) com a vogal temática (no caso, A). Assim, o tema dessas formas do verbo AMAR é AMA.

A 1' e a 2' estão no mesmo modo (Indicativo); a 1' e a 3' estão no mesmo tempo (Pretérito Imperfeito). Só a 2' e a 3' são totalmente diferentes: tempo (Futuro do Pretérito x Pretérito Imperfeito) e modo (Indicativo x Subjuntivo). VA, RIA e SSE são desinências modo-temporais. Veja que vêm logo depois do tema. No caso de AMAR, o R é a desinência modo-temporal do infinitivo.

Há casos em que a desinência modo-temporal não aparece: AMA, VENDE, PARTI.

Exemplo 4

AMASSES

AMASSEIS

AMASSEM

AMASSES, AMÁSSEIS e AMASSEM são três formas do verbo AMAR (radical + vogal temática + desinência modo-temporal) e estão nos mesmos tempo e modo. A 1' e a 2' estão na mesma pessoa (2'), porém a 1' é singular (tu) e a 2' é plural (vós); a 2' e a 3' estão no mesmo número (plural), entretanto as pessoas são diferentes: 2' (vós) e 3' (ele ou ela); a 1' e a 3' formas apresentam diferenças de pessoa (2' x 3') e número (singular x plural). S, IS e M são desinências número-pessoais. Também a desinência número- pessoal pode não aparecer: AMASSE, VENDERIA e PARTISSE.

Veja, finalmente, como deve ser o raciocínio para identificar tais elementos mórficos.

Quais são os elementos mórficos de DESORGANIZÁVAMOS?

Solução:

1.    É uma forma do verbo DESORGANIZAR; logo o Radical é DESORGANIZ (tira-se a última vogal e o R).

2.    A vogal temática é A, que caracteriza a 1' conjugação (verbos em -AR).

3.    O tema é DESORGANIZA (Radical + Vogal temática).

4.    Resta-nos descobrir as desinências. Como a forma da 3' pessoa do singular (ele) seria DESORGANIZAVA, pode-se afirmar que a DMT, que se repete, é VA; portanto, sobra a DNP, que é MOS, já que é o que as diferencia.

5.    Na ordem: FORMA VERBAL => DESORGANIZÁVAMOS

6.    Radical – DESORGANIZ

7.    Vogal temática - A

8.    Tema - DESORGANIZA

9.    DMT – VA

10.  DNP – MOS.

Obs.: É interessante observar que a raiz ou radical primário está no substantivo "ÓRGÃO" (“organ-”), de que, com o auxílio do sufixo "IZ" (+ AR / vogal temática e desinência modo-temporal), se forma o verbo "ORGANIZAR". Acrescentando-se o prefixo que indica negação "DES", tem-se o verbo "DESORGANIZAR" e daí vem a forma verbal analisada "DESORGANIZÁVAMOS".