Uma interessante dúvida de análise sintática

Olá, professor! Boa tarde. Suas aulas são muito esclarecedoras para mim, no entanto, ainda possuo algumas dúvidas sobre a função sintática dos pronomes relativos. O senhor poderia me ajudar, por favor?

Por exemplo, nos trechos:

"Antes da banda larga, navegar na web demandava um provedor de acesso e uma rede telefônica conectada a um modem, responsável por codificar e decodificar a informação em forma de sinais de áudio -- O QUE deixava o telefone ocupado para receber e realizar ligações."

"Para navegar na Internet, era necessário utilizar a linha telefônica e cada minuto de uso era cobrado pelo provedor do serviço, O QUE podia gerar altas contas de telefone."

"Para piorar, se alguém tirasse o telefone do gancho para fazer uma ligação, a conexão caída, situação QUE, muitas vezes, causava conflitos nas famílias."

"O TechTudo produziu uma lista com nove coisas QUE todo mundo fazia na época da Internet discada." 

Quais seriam as funções sintáticas dos pronomes relativos em destaque? Sei que alguns não são pronomes relativos, mas não sei identificar a causa. O senhor poderia me ajudar?

Agradeço pela atenção desde já.

Olá, Brígida
Vamos lá:

"Antes da banda larga, navegar na web demandava um provedor de acesso e uma rede telefônica conectada a um modem, responsável por codificar e decodificar a informação em forma de sinais de áudio -- O QUE deixava o telefone ocupado para receber e realizar ligações."

"Para navegar na Internet, era necessário utilizar a linha telefônica e cada minuto de uso era cobrado pelo provedor do serviço, O QUE podia gerar altas contas de telefone."

"Para piorar, se alguém tirasse o telefone do gancho para fazer uma ligação, a conexão caída, situação QUE, muitas vezes, causava conflitos nas famílias."

"O TechTudo produziu uma lista com nove coisas QUE todo mundo fazia na época da Internet discada." 

Todos são pronomes relativos, sendo que os dois primeiros têm como antecedente o "o" pronome demonstrativo, nas construções conhecidas como "coesão por substituição resumida"(que retoma o que foi dito anteriormente / "o que" = "e isso"). Os demais têm como antecedentes as palavras "situação" e "coisas". Quanto às funções sintáticas, os três primeiros são sujeitos, respectivamente de ""deixava", "podia gerar" e "causava". O último é objeto direto de "fazia", verbo que tem como sujeito a expressão "todo mundo".
.
 


A linguagem jurídica envergonhada

“A liturgia de cargos, como o do Presidente da República, como o do Diretor-Geral da Polícia Federal, são importantíssimos frente à própria sociedade, porque eles são agentes públicos, eles são agente políticos, notadamente num momento como este, aonde o Presidente da República é investigado a partir da própria Polícia Federal, e a presença do Diretor-Geral da Polícia Federal numa audiência reservada com o Presidente da República traz para a sociedade uma ideia que certamente não é a que nós todos gostaríamos de ter, de independência, de transparência, de isenção. Isso não é bom, notadamente, para as instituições.”

 

O texto acima foi ouvido hoje à noite na edição do Jornal Nacional, de Rede Globo. Era a fala do Presidente da OAB, criticando uma ação do principal nome do governo brasileiro.

Embora com muitas repetições, erro grave, mas aceitável na língua falada, traz três imperfeições marcantes.      

1)      “A liturgia de cargos, como o do Presidente da República, como o do Diretor-Geral da Polícia Federal, (são importantíssimos) é importantíssima...”

2)      “...porque (eles) esses são agentes públicos...”

3)      “...num momento como este, (aonde) quando (ou em que) o Presidente da República é investigado...”

Saudade do tempo em que todos os grandes advogados eram brilhantes oradores! Como apanha a língua portuguesa!


A universidade envergonhada

“Essa decisão da presidente do STF, Cármen Lúcia, representa o sistema de pesos e contrapesos da democracia. O Tribunal interviu em um decreto em que a presidente entendeu que deve ser levado ao plenário. Obviamente é uma derrota para o governo do presidente Michel Temer, que tentou passar, às vésperas de um grande feriado, um decreto que beneficia os criminosos de colarinho branco.”

O texto acima, de autoria de um cientista político da UFSCar, está quase totalmente correto, não fosse a conjugação errada do verbo “intervir”, que, sendo derivado de “vir”, deveria ser conjugado como esse. A forma correta é “interveio”: “O Tribunal interveio em um decreto...”

Lembrem-se: todo verbo derivado segue a conjugação do primitivo de que deriva.


Ainda o acento grave

Olá, professor. Desculpe o incômodo durante seu período de férias, mas não consegui chegar a uma conclusão e, por esse motivo, recorro ao senhor.

Bomba a ou à cilindrada constante?
Válvula limitadora de pressão a ou à ação direta?

 

Olá, Ana Lúcia

Na primeira, usaria o acento, para não confundir com: "Bomba (verbo) a cilindrada constante (sujeito)", com a ordem invertida; na ordem normal, seria: “A cilindrada constante bomba”, ou seja, “funciona bem”. Assim, é melhor acentuar, escrevendo: "Bomba à cilindrada constante...", isto é, “trata-se de uma bomba que funciona “à cilindrada constante” ou “com a cilindrada constante”.

Na segunda, também o usaria, mais uma vez para evitar ambiguidade, não nesta frase, mas em outra possível: "Válvula limitadora de pressão à ação direta...", equivalente a "Válvula limitadora de pressão sob a ação direta...".

É bom lembrar que, provavelmente, se seguem às duas expressões elementos especificadores (daí as reticências), e suas ausências é que tornaram a dificuldade maior. Com tais elementos presentes, tudo seria mais fácil.


BOM DIA x BOM-DIA / BOA TARDE x BOA-TARDE / BOA NOITE x BOA-NOITE

Olá, professor Ozanir Roberti

            Soube, há algum tempo, por meio de uma colega, que ela encaminhou a seguinte pergunta ao programa “Academia responde”, da Academia Brasileira de Letras:

Boa-tarde! Ao iniciar uma mensagem, como feito agora, devo usar as saudações "bom-dia/boa-tarde/boa-noite" com ou sem hífen?

Veja a resposta, dada naquela ocasião, no site da ABL:

“Escreva as saudações com hífen: ‘Bom-dia!, ‘Boa-tarde!’ e ‘Boa-noite!’. Se não for saudação, escreva sem hífen."

a) “Bom-dia a todos vocês!”

b) “Espero que tenham um bom dia.”

c) “Ontem passei um bom dia na praia.”

d) “Passei uma boa tarde no cinema.”

e) “Tive uma boa noite de sono.”

Agora, leia o que escreveu, no jornal O DIA, em 21/8/2011, o professor Evanildo Bechara, que, em nome da ABL, coordena o programa acima citado:

“Outro leitor, tendo lido no VOLP o verbete ‘bom-dia s.m.’, nos pergunta se a saudação matinal ‘Bom dia!’ terá também de ser grafada com hífen. A resposta é não, porque a lição estampada no verbete do VOLP se aplica, como bem aí se declara, ao substantivo composto ‘bom-dia’:

f) “Deu um bom-dia animado.” – que é o nome da saudação a alguém até a primeira metade do dia, representada por uma frase nominal, e não por um substantivo composto.

Machado de Assis, durante muitos anos, assinou uma coluna de diário carioca intitulada ‘Bons dias!’, usando a frase nominal como saudação matinal dirigida a seus leitores; e Álvaro Moreyra usava dos substantivos compostos, todos hifenados, na seguinte passagem: “Dá bom-dia, dá boa-tarde e boa-noite”, substantivos que funcionam como complemento direto do verbo ‘dar’.                                                    

"Desenrolando" o fato linguístico: a conclusão é a seguinte:

A Academia responde... meio ERRADO ou mal explicado! O professor Bechara está... CERTÍSSIMO! 

A expressão "Bom dia!" nada mais é do que uma redução da oração:

g) “Tenha um bom dia!” – sendo um sintagma formado por "artigo + adjetivo + substantivo", o qual funciona como Objeto Direto do verbo "ter", semelhante a “Tenha um excelente dia!”.

h) “Bom dia, pessoal!”

i) “Boa tarde, ouvintes!”

j) “Boa noite, Brasil!”

Quando transformado em substantivo, aí sim, deve-se colocar o hífen:

k) "Um bom-dia falado assim tem um sabor especial."

l) “O apresentador gritava um boa-tarde muito escandaloso.”

m) “O boa-noite do jornalista pareceu mais grave naquela início do Jornal Nacional.”