Fala-se "BÊNÇÃO" (paroxítona) ou BENÇÃO (oxítona)?

Professor, o certo é benção ou bênção?  Tem ou não o acento?

Olá, Clara             

É muito comum encontrar nos jornais a palavra “benção”, escrita assim, sem acento. Na verdade, tal vocábulo existe mesmo, com a pronúncia forte na última sílaba: “benÇÃO”, como “emoÇÃO”, “coraÇÃO” e “exceÇÃO”. Mas não é por conhecerem sua existência que ela é a usada. Na verdade, simplesmente, as pessoas não usam o acento, porque pensam que ele não existe. E o corretor ortográfico não as alerta, afinal a palavra existe.

a) O comentarista, cheio de esperança, afirma que a nossa seleção jogará a Copa de 2020 num 4-3-1-2 ou 4-3-3, sob a benção de Tite.

                No entanto, ninguém fala dessa forma! Todos a pronunciam como paroxítona: “BÊNção”, como “ÓRfão”, “ÓRgão”, “aCÓRdão” e “SÓtão”.

                Veja que todas elas são acentuadas graficamente, já que existe uma regra de acentuação gráfica que manda usar o sinal em todas as paroxítonas terminadas no ditongo tão comum "-ão”.

b) O comentarista, cheio de esperança, afirma que a nossa seleção jogará a Copa de 2020 num 4-3-1-2 ou 4-3-3, sob a bênção de Tite.

                Assim, é bom guardar que se deve condenar a falta do acento gráfico. É melhor escrever bênção (com acento).

Pior é quando precisamos usar a palavra no plural, já que são bem diferentes.

c) Os cariocas terão um fim de semana sob as bênçãos do sol e da praia. (fala-se com o “ben” forte)

d) Os cariocas terão um fim de semana sob as benções do sol e da praia. (fala-se com o “ções” forte)

Vale lembrar que “bênçãos” é o plural de “bênção” (bênção – paroxítona / palavra que nós falamos), mas que também se poderia escrever “benções” (sem acento), que é o plural de “benção” (benção – oxítona / forma bem mais antiga, palavra que raríssimas pessoas ainda falam).

Curiosidade: o Papa Bento XVI, que desistiu do trono hoje ocupado por Francisco, a falava com o “ão” tônico (forte).


Quem nasce em Bengala é bengalês ou bengali?

 

Olá, Luís Fernando

As duas estão no VOLP/ABL. Agora veja só:
Perceba como o Houaiss apresenta os dois verbetes, sendo o primeiro com muitos detalhes a mais: 
Bengali

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

1 relativo a Bengala, região entre a Índia e Bangladesh, ou o que é seu natural ou habitante; bengala, bengalês

2 relativo a Bangladesh ou o que é seu natural ou habitante; bengalês

n substantivo masculino

3 Rubrica: linguística.

língua pertencente ao ramo indo-iraniano, sub-ramo indo-árico, grupo sânscrito, da família de línguas indo-europeias, falada por cerca de 150 milhões de pessoas, em Bangladesh (língua oficial), em vários estados da Índia (Assam, Bengala Ocidental, Bihar, Orissa e Tripura) e no Sul do Butão [É uma das línguas oficiais da Índia; nela escreveu o poeta Rabindranath Tagore.]

4 Rubrica: ornitologia.

m.q. pintassilgo (Carduelis spinus)

Bengalês
 adjetivo e substantivo masculino
m.q. bengali (nas acp. gentílicas)

Isso ocorre porque o Dicionário Houaiss considera "bengali" como a forma preferencial.
Assim, é mais interessante usar a forma recomendada, embora não haja erro ao utilizar “bengalês”.


O ACENTO GRAVE OU CASOS DE CRASE

Olá, professor.

Acredito que a questão que descrevo a seguir esteja com problema, porém não consigo ver uma solução sozinho:

Assinale a oração que deveria apresentar um caso de crase. Escolher uma resposta

a. O senador fez um discurso em Brasília a Cícero.

b. Há um resto a pagar.

c. Os gatunos atacaram a escola a tiros.

d. Comprei a sessenta reais cada uma.

A resposta que vejo como correta, no gabarito, é a letra a. A minha dúvida é que, até onde estudei, a crase é usada antes do nome feminino, ou seja, não seria a frase correta:

O senador fez um discurso em Brasília ao Cícero ou O senador fez um discurso em Brasília à Maria

Por gentileza, é possível esclarecer-me essa dúvida?

Olá, Carlos

A resposta é a opção “A” mesmo. Precisa do acento indicador da crase.
No caso, a expressão "à Cícero" indica claramente "à moda de Cícero"; por isso, precisa do acento grave, exatamente para não ser confundida com a outra ideia, aliás sem muita coerência.

Quanto à afirmação de não haver o acento grave antes de masculinos, existem, além desse, pelo menos outros dois casos de acentuação:

a) O aluno dirigiu-se àquele professor

b) Nós nos referimos à São Paulo de Mário de Andrade. (implícita a palavra "cidade")

Nas demais, não poderia ocorrer o acento:

b. Há um resto a pagar. – o “a” está antes de verbo, logo é apenas a preposição;

c. Os gatunos atacaram a escola a tiros. – o primeiro "a" é apenas artigo; o segundo “a” está antes de substantivo masculino plural, logo é apenas a preposição;

d. Comprei a sessenta reais cada uma. – o “a” está antes de numeral + substantivo masculino plural, logo é apenas a preposição.


O hífen e suas armadilhas

Com o Acordo Ortográfico de 2009, há uma nova regra sobre o uso do hífen: palavras compostas que tenham elemento de ligação e não sejam nomes de animais ou vegetais perdem os hifens. Vale entender palavra de ligação com o sentido mais amplo.

Assim, “dia-a-dia” (= rotina), “fogão-a-gás”, “pé-de-moleque” e “olho-de-sogra” (= doces) perdem seus hifens e passam a ser escritas da seguinte maneira: “dia a dia”, “fogão a gás”, “pé de moleque” e “olho de sogra”.

No entanto, “joão-de-barro” (= pássaro), “bem-te-vi” (= pássaro), “pé-de-bezerro” (= planta), “bênção-de-deus” (= planta), por estarem nos campos da zoologia e da botânica, mantêm os seus hifens.

Temos de tomar cuidado com situações que podem nos levar a erros de grafia. Veja só: existe “bico-de-papagaio” (= planta) com hifens, ao lado de “bico de papagaio” (= calcificação na coluna); também há “não-me-toques” (= planta) e “não me toques” (= melindres, cuidados excessivos). O vocabulário nem sempre esclarece tudo. e o dicionário é chamado a ajudar.

Finalmente, há exceções inexplicáveis ou cujas histórias que as justificam se perdem no tempo ou se acham na imaginação. Segundo o VOLP/ABL, essas grafias são oficiais:

“água-de-colônia” (= perfume), “arco-da-velha” (= arco-íris), “cor-de-rosa” (= cor), “mais-que-perfeito” (= tempo verbal) e “pé-de-meia” (poupança).

Hoje, confirmei que não é possível continuar assim:  existe uma planta chamada “cruz-de-malta”, que, na verdade, não é a cruz de malta, símbolo do Vasco da Gama.   


O uso de ou dos artigos...

Pergunta da Sandra

Prezado mestre, gostaria de uma explicação. Com qual finalidade, em termos de precisão da mensagem, devemos optar pelo uso de formas sem ou com artigo nos seguintes casos?

a) Problemas relacionados a questões de saúde ou problemas relacionados às questões de saúde?

b) Determinantes sociais vinculadas a problemas de saúde ou determinantes sociais vinculadas aos problemas de saúde?
 

Olá, Sandra

A presença do artigo dá uma noção de inteireza, enquanto sua ausência traduz uma noção de número indefinido, mas apenas uma parcela.

Entenda:

a) Problemas relacionados a questões de saúde seriam problemas relacionados a algumas questões de saúde, enquanto problemas relacionados às questões de saúde seriam problemas relacionados a todas as questões de saúde.
b) Determinantes sociais vinculadas a problemas de saúde seriam determinantes sociais vinculadas a alguns problemas de saúde, enquanto determinantes sociais vinculadas aos problemas de saúde seriam determinantes sociais vinculadas a todos os problemas de saúde.