Fantasmas da Análise sintática 6) “Ser” e “estar” são verbos de ligação?

Mestre, “ser” e “estar” só podem ser verbos de ligação?

Para começar, vale lembrar que a predicação verbal é uma propriedade oracional; assim, o verbo deve ser identificado de acordo com a oração em que ele aparece.

Esses dois verbos, ao lado de outros, como “ficar”, “parecer” e “permanecer”, são listados, erradamente, como verbos de ligação, como se assim fossem sempre.

Na verdade, o que caracteriza os verbos como de ligação é a perda da ideia de ação, só restando a eles indicar um estado. Por isso, são considerados como elementos de ligação, com uma noção semântica secundária.

Eles acabam fazendo parte de uma lista, porque, hoje, o seu uso mais corrente, é exatamente, nessa situação em que perdem a característica nocional, isto é, de indicar uma ação.

Vamos ver dois exemplos com o verbo “ser”.

1)   “A nossa independência foi em 1822.” – esse é o verbo “ser” numa indicação nocional, ou seja, indicando uma ação, que ocorreu “em 1822”. Esse termo é um adjunto adverbial de tempo, já que tem uma informação ligada ao verbo. Podemos entender o verbo “ser” como sinônimo de “ocorrer”. Apenas ele se refere ao sujeito.

 2)   “A nossa independência foi curiosa.” – agora, o “ser” aparece no seu uso mais comum, como verbo de ligação, indicando um estado, “curioso”, que é o predicativo do sujeito. Aliás, essa é uma estrutura fixa: “sujeito + VL + predicativo do sujeito”. É o nome, um adjetivo, que faz uma referência ao sujeito.

Veja, agora, que acontece o mesmo com o verbo “estar”.

3)   “A família está em Montreal.” – esse é o verbo “estar” numa indicação nocional, ou seja, indicando uma ação, o ato de “estar”, que é seguido por “em Montreal”. Esse termo é um adjunto adverbial de lugar, uma função ligada ao verbo. Nesse caso, temos um predicado verbal, pois só o verbo se relaciona com o sujeito.

4)   “A família está preocupada.” – nesse exemplo, o “estar” aparece no seu uso mais comum, como verbo de ligação, indicando um estado, “preocupada”, que é o predicativo do sujeito, obedecendo à estrutura conhecida como predicado nominal.

Não se esqueça! Não há lista alguma! Tem-se de analisar o que ocorre em cada exemplo.

Mais três exemplos:

5)   “Os jovens continuam o trabalho.”

6)   “Os jovens continuam na escola.”

7)   “Os jovens continuam animados.”

Só o último “continuar” é de ligação, uma vez que não indica ação alguma. É o adjetivo “animados” que se relaciona com o sujeito, cabendo ao verbo apenas o papel de ligação entre o sujeito e o predicativo.

Nos exemplos 5 e 6, existe a ação de “continuar alguma coisa ou em algum lugar”. O verbo da frase número 5 é transitivo direto (“continuar alguma coisa”), sendo “o trabalho” o objeto direto. No exemplo número 6, o verbo é intransitivo e o termo ”na escola” é um adjunto adverbial de lugar.


Fantasmas da Análise sintática 5) Coordenação e subordinação ao mesmo tempo

Pergunta de uma aluna:

No período “O menino sabia que a oportunidade chegaria, mas era difícil aguardá-la”, eu entendo bem que a oração (1) é a oração principal da segunda oração, mas tenho dificuldade de entender que a terceira oração é, além de coordenada assindética à segunda, subordinada à oração (1). Para mim, ela só teria uma relação de coordenação com a segunda.

É uma dúvida comum, que acontece por compreensão errada da estrutura do período, o que ocorre com mais frequência com alunos que aprenderam mal a análise do período.

Comecemos lembrando como se faz a divisão:

1)      Sublinhe os verbos!

“O menino sabia que a oportunidade chegaria, mas era difícil aguardá-la.”

2)      Há 4 verbos, logo 4 orações. Marque, agora, os conectivos ou palavras de ligação!

“O menino sabia que a oportunidade chegariamas era difícil aguardá-la.”

3)      Dois! Parece faltar um! Coloque colchetes de abertura no início do período e antes dos conectivos, início das orações, e numere-as!

[(1) “O menino sabia [(2) que a oportunidade chegaria, [(3) mas era difícil aguardá-la.”

4)      Comece a fazer uso dos colchetes de fechamento, sabendo que cada verbo tem de ficar em uma oração! Veja que, no final, há duas orações, embora não haja conectivo. Vendo que “difícil” está ligado ao verbo “ser”, tem de ocorrer fechamento e abertura antes de “aguardá-la”.  

[(1) “O menino sabia] [(2) que a oportunidade chegaria],[(3) mas era difícil] [(4) aguardá-la.”]

5)      Como o último verbo está no infinitivo, não é necessária a palavra de ligação. Passemos a ver, agora, a estrutura sintática. A primeira oração tem um sujeito (“O menino”) e um verbo transitivo direto (“sabia”; logo, precisa-se de objeto direto. “Sabia o quê?

6)      Raciocine! “Sabia duas coisas, “que a oportunidade chegaria e que era difícil aguardá-la.” Troquei o “mas” por “e que”, para lhes mostrar que a oração 3, também, completa o verbo TD “sabia”. Usando o artifício de substituir as orações 2 e 3 por “isso”, ficaria assim:

“O menino sabia isso (que a oportunidade chegaria) e isso (que era difícil aguardá-la.”)

7)      Veja de outra forma. Se tirássemos a segunda, a terceira completaria, também, o verbo “saber”:  

(1)   O menino sabia/ (2) que a oportunidade chegaria... 

Tirando-a:

(2)   O menino sabia/  (3) que era difícil /(4) aguardá-la.

 8)      Tirei o “mas” porque ele só serve à coordenação. Incluí o “que” porque, no texto original, ele não aparecera, para que não houvesse a repetição. São noções e propriedades semânticas, que acabam “atrapalhando” a análise sintática. 

9)      As orações 2 e 3 servem como objetos diretos do verbo “saber”. Foi usado o “mas” a fim de caracterizá-las como opostas.

10)  A última relação sintática acontece na situação da oração 4, uma oração reduzida, porque tem seu verbo no infinitivo e não tem palavra de ligação,  que é o sujeito da 3. Veja que a terceira tem um verbo de ligação e um predicativo, o adjetivo “difícil”; por isso, ela é o seu sujeito.   

11)  Fica assim a classificação das orações:

1)      Principal da 2 e da 3 (porque a 2 e a 3 lhe servem como objetos diretos; mas não da 4, já que a 4 não tem relação direta com ela, ou seja, não é função dela)

2)      Subordinada substantiva objetiva direta à 1 (porque ela é objeto direto de “sabia”) e coordenada assindética à 3 (por ter a mesma principal e a mesma função da 3 e por não ter qualquer conjunção coordenativa)

3)      Subordinada substantiva objetiva direta à 1 (porque ela também é objeto direto de “sabia”), coordenada sindética adversativa à 2 (por ter a mesma principal e a mesma função da 2; além de ter a conjunção coordenativa adversativa “mas”) e principal da 4 (por ter a 4 como seu sujeito).

4)      Subordinada substantiva subjetiva à 3 (por ser o sujeito de “é difícil”)


Fantasmas da Análise sintática 4) Verbo sendo sujeito

Pergunta de uma aluna:

Mestre, em “Navegar é preciso”, o sujeito não é simples? Mas não é uma palavra só?

Antes de tudo, é bom saber que essa famosa frase foi dita, pela primeira vez, segundo o historiador Plutarco, pelo general romano Pompeu, quando incentivava seus homens a enfrentarem o mar bravio e cheio de assaltantes com a missão de levar alimento ao povo romano num momento de crise. Vale lembrar que “preciso”, nessa frase, ao contrário do que muitos pensam, se trata do adjetivo equivalente a “exato”, “sem erros”, “sem imprecisões”.

É... Sua dúvida tem certa procedência. Afinal, o sujeito de “é preciso” é “navegar”, o núcleo é a palavra “navegar”, um vocábulo somente; então, deveria ser um sujeito simples.

A Nomenclatura Gramatical Brasileira, porém, dividiu o sujeito em quatro tipos: simples, composto, oracional e indeterminado, além de observar que pode haver orações sem sujeito.

O que ocorre nesse período é que existem dois verbos: “navegar” e “é”. O sujeito de “é” é a ação “navegar”. Veja só: O que é preciso? E a resposta vem clara: “Navegar” (só um infinitivo) ou “que se navegue”. Como é um verbo, sabemos que é uma oração. A NGB preferiu chamá-lo de oracional, isto é, a função de sujeito do verbo “ser” é exercida por uma oração reduzida de infinitivo: “Navegar”. Se tivéssemos a opção “Que se navegue”, ela estaria na forma desenvolvida, ou com a conjunção.

É bom saber que, sendo uma oração, “navegar” também deve ter um sujeito, que deve ser considerado indeterminado, ou seja, é aquele caso não explicitado na Gramática Tradicional, em que o verbo está no infinitivo sem flexão, não indicando, assim, um agente da ação. É uma referência geral, isto é, a todos e não a alguém específico.


Turma 20 do Curso à distância de Formação em Revisores

Estamos confirmando a 20a turma do "Curso à distância de Formação em Revisores e Atualização em Língua Portuguesa", que, assim, contempla uma larga revisão do programa de Língua Portuguesa, incluindo Ortografia, Pontuação, Conjugação verbal, Coesão e coerência, Concordância, Regência, Crase, Emprego de pronomes relativos, demonstrativos e pessoais, e outros mais.
Esta turma começará em 2/7, com uma pré-aula, em que falaremos do uso do Skype para os encontros on-line (que podem ser gravados), mostraremos o calendário e os itens do programa e explicaremos toda a dinâmica dos exercícios e avaliações.
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Outras informações podem ser encontradas no site <www.professorozanirroberti.com.br>, na página "Cursos" e no blog (matéria de 1/6).
Caso você não possa fazer o curso agora, agradecemos sua divulgação.
Qualquer dúvida, faça contato.
Abraços.
Ozanir Roberti


Fantasmas da Análise sintática 3) Transitividade ou predicação verbal

Pergunta de um “concurseiro”

Na construção “Nunca produzimos nem vendemos tanto. Nós não sabemos se rimos ou se choramos”. Qual seria a transitividade destes verbos? 

No gabarito está que existe apenas um verbo transitivo. Existe uma outra opção que afirma que apenas os dois primeiros são intransitivos. A aluna colocou esta opção, e o professor do cursinho deu como errado colocando o gabarito como “há apenas um verbo transitivo”.

Não sei de onde veio tal questão, nem a resposta adequada. O fato é que as opções citadas não correspondem à verdade.

Os dois primeiros (“produzir” e “vender”) são transitivos diretos, apenas o objeto direto dos dois é o mesmo, por isso não o repetimos: “Nunca produzimos tanto nem vendemos tanto.” Veja que poderíamos dizer “Nunca produzimos tantos bens nem vendemos tantos bens.”

O terceiro, “saber”, também é TD, sendo seus ODs as orações seguintes: “se ri ou se chora”, coordenadas entre si.

Os dois últimos (“rir” e “chorar”) são intransitivos, não precisam de qualquer complemento.

A verdade, porém, é um pouco mais complicada, já que a predicação verbal pode variar conforme o texto em que o verbo aparece. Entenda isso, usando os exemplos abaixo;

1)      A menina canta o Hino Nacional com emoção.

2)      A menina canta bem!

Percebam que, no exemplo 1, o verbo “cantar” tem um complemento objeto direto “o Hino Nacional” e um adjunto adverbial “com emoção” (= “emocionadamente”). No segundo período, o verbo “cantar” vem acompanhado apenas de um adjunto adverbial de modo. Assim, o primeiro “cantar” é transitivo direto, e o segundo, intransitivo.